Apesar de ser mais um esportivo de aparência, modelo até consegue entregar desempenho nervoso. Porém, acerto do conjunto mecânico pede condução tranquila

Quando um fabricante decide criar uma versão esportiva de determinado automóvel, tem que escolher entre dois caminhos: ou prioriza a performance ou o preço. Quando decide pela primeira possibilidade, o resultado consiste em veículos com mecânica sofisticada, mas inacessíveis à maioria dos consumidores, que não têm condições de compra-los. Se a opção for pelos números de mercado, nascem os chamados “esportivados”, que têm apenas o visual diferenciado em relação ao restante da linha, porém com valores de tabela mais convidativos. Alguns deles, apesar de utilizarem propulsores convencionais, até conseguem oferecer um bom compromisso entre desempenho, dirigibilidade e custo, como ocorria com os finados Ka Sport, Polo GT e Strada Sporting. Poderia ser o caso também do Nissan March SR, mas o compacto de origem nipônica bate na trave. Ele proporciona acelerações e retomadas até surpreendentes, mas fica devendo uma calibragem própria, mais rígida, para suspensão e direção.

O motor 1.6 16V do March SR desenvolve 111 cv de potência e 15,1 kgfm de torque. Em termos absolutos, esses números parecem baixos, mas ocorre que o hatch é um verdadeiro peso-pena, com apenas 982 kg de massa corporal. Assim, chega-se a uma relação peso/potência bastante favorável, de 8,85 kg/cv. Além do mais, as relações do câmbio são curtas, fazendo com que o propulsor suba de giro rapidamente. Pronto, está aí a fórmula simples, porém eficaz, do Nissan. Na prática, o carrinho sempre tem fôlego para responder às solicitações do pé direito. O desempenho, é claro, não chega ao nível dos modelos realmente esportivos disponíveis no mercado, todos dotados de turbocompressor e potência acima dos 150 cv. Porém, a performance é acima da média e faz parecer que há até um propulsor de maior cilindrada sob o capô. Se o motorista estiver em linha reta, tudo vai muito bem. Mas quando o percurso reserva trechos sinuosos, surgem deficiências.

TEMPERAMENTO TRANQUILO As demais versões do March proporcionam uma condução relaxada, com suspensão macia e direção suave. Em relação ao restante da linha, o SR não recebeu modificações nos dois itens em questão. O resultado é um comportamento mais pacato, apesar da disposição do motor. Nas curvas, o conjunto formado por sistemas McPherson na frente e eixo de torção atrás deixa a carroceria inclinar demais e a dianteira não demora a apresentar tendência a sair da trajetória.  Além do mais, em alta velocidade, o volante fica demasiadamente leve, pois o sistema de assistência, do tipo elétrico, tem calibragem voltada para o conforto. O hatch não chega a ser inseguro, mas deveria oferecer um acerto mais firme, em virtude da proposta esportiva. O câmbio de cinco marchas com relações curtas é coerente ao priorizar as retomadas, mas tem como consequência o aumento do nível de ruído no habitáculo em viagens: a 120 km/h, o conta-giros registra 3.500 rpm. Os engates são um tanto imprecisos e barulhentos.

Quanto ao motor, nada a reclamar. O 1.6 16V oferece boas respostas em todas as faixas de rotação, graças em parte ao mecanismo de variação contínua das válvulas, na admissão e no escape. Bloco e cabeçote são confeccionados em alumínio e a sincronização é feita por corrente, dispensando a temida correia dentada. Em altas rotações, nota-se alguma aspereza no funcionamento, mas essa característica não é muito acentuada. Trata-se de um propulsor atual, que apesar de não ser de última geração, tem mais tecnologia embarcada que a maioria dos concorrentes de mesma cilindrada no Brasil.

PINTURA DE GUERRA Por fora, o March não esconde as pretensões esportivas, com spoilers, aerofólio, adesivos e saída de escape cromada. As rodas de liga leve aro 15’ têm desenho idêntico ao das demais versões 1.6, mas exibem pintura exclusiva, em grafite. Os pneus são estreitos, com medidas 175/60. Talvez um conjunto um pouco mais largo (185/60, por exemplo) contribuísse para melhorar o controle direcional. Por dentro, porém, o hatch é discreto. Não há bancos com apoios laterais mais largos, couro no volante ou o pedaleira em alumínio, sequer tecido com padronagem mais descontraída ou grafia exclusiva nos instrumentos. O cluster, aliás, é exatamente o mesmo presente no restante da linha, sem o útil marcador de temperatura do motor, embora a leitura seja satisfatória. O acabamento também não reserva diferenciações. Painel e forrações de portas são confeccionados em plástico rígido, sempre na cor preta.  Há diferentes texturas, que não chegam a ser ásperas ao toque, mas é possível notar rebarbas e encaixes deficientes em alguns locais.

O motorista senta-se centralizado e dispõe de boa visibilidade para todos os lados. A posição de dirigir, entretanto, é prejudicada pela pega do volante, que tem aro fino demais. Outra falha ergonômica é a posição ruim dos comandos dos retrovisores elétricos. O banco compromete um pouco o conforto, pois o assento é muito curto e não acomoda bem as pernas, mas ao menos há ajuste de altura, que não movimenta o encosto. Do mesmo modo, a direção também é regulável, mas apenas no sentido vertical, e não em profundidade. Os retrovisores são bem dimensionados e os limpadores varrem o para-brisa atuam de modo adequado, varrendo boa área e sem ruídos excessivos. Os faróis monoparabólicos iluminam razoavelmente bem e contam com o auxílio de luzes de neblina na dianteira.

HABITÁCULO O espaço para quatro adultos é adequado, mas se a ideia for transportar cinco ocupantes, haverá aperto. Atrás, os mais altos poderão reclamar do espaço para as pernas, que não chega a ser ruim considerando-se o tamanho reduzido do March, com apenas 3,78 metros de comprimento. Por outro lado, ninguém raspará a cabeça no teto, graças à altura elevada da capota. De acordo com a Nissan porta-malas comporta 265 litros de bagagem, valor que poderia ser um pouco maior, mas que não chega a comprometer diante da concorrência. O vão de abertura do compartimento é amplo e permite a entrada de objetos maiores.

A versão esportiva também não se mostrou diferente das demais em termos de consumo. As médias do March SR ficaram em 10 km/l na cidade e 14 km/l na estrada, sempre com gasolina no tanque. Os valores, satisfatórios para a cilindrada, foram obtidos com ar-condicionado ligado durante a maior parte do tempo. O tanque de combustível de apenas 41 litros, contudo, limita a autonomia a cerca de 574 km. Não custa destacar que o gasto de combustível pode ser influenciado por diversas variáveis, como as condições do tráfego, da pista e do relevo, além do estilo de condução do motorista.

NA MÉDIA O March SR traz o essencial na lista de equipamentos de série. Há ar-condicionado, acionamento elétrico para travas, retrovisores e vidros, sendo o do motorista equipado com função one-touch, chave com telecomando, alarme e rádio/cd player com leitor MP3, Bluetooth, entrada para iPod  e comandos no volante. Há alguns mimos como temporizador regulável nos limpadores de para-brisa e tomada 12 volts. Não são oferecidos sensores de estacionamento traseiro, pois o pacote é único e não é possível adquirir opcionais.

O modelo se mantém na média da categoria no pacote de itens de segurança. Airbag duplo e ABS com BAS são de série no March. As frenagens são seguras, sem destaques positivos ou negativos. O banco traseiro oferece apenas dois encostos de cabeça e dois cintos de três pontos, deixando o ocupante central desprotegido. A lista para por aqui: não espere sistema Isofix para fixação de cadeirinhas, sidebags ou controles eletrônicos de tração ou estabilidade. É verdade que tais ausências são generalizadas na categoria, mas o March tem um pecado mais grave quando o assunto é proteção em caso de acidentes: mesmo dotado de bolsas de ar frontais, ele obteve apenas duas estrelas no crash-test realizado pelo Latin NCAP. Alguns rivais, munidos dos mesmos equipamentos, obtiveram três ou até quatro estrelas na mesma avaliação.

PACOTE ACESSÍVEL O preço de tabela do March SR é de R$ 40.590. Trata-se de um valor competitivo, já que o hatch tem desempenho acima da média na categoria e oferta de equipamentos semelhante. Entretanto, a versão esportiva merecia diferenciação dos irmãos 1.6 16V não apenas no visual, mas também no comportamento. Nem seriam necessários grandes investimentos da Nissan: bastaria um acerto mais voltado para a dirigibilidade, com suspensão mais rígida e direção firme. Também seria muito bem vindo um projeto mais eficiente de deformação programada… Quem sabe quando o modelo for nacionalizado, em 2014?

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho(acelerações e retomadas) 9 8
Consumo(cidade e estrada) 8 7
Estabilidade 7 8
Freios 7 7
Posição de dirigir/ergonomia 7 7
Espaço interno 7 6
Porta-malas(espaço, acessibilidade e versatilidade) 6 6
Acabamento 6 7
Itens de segurança(de série e opcionais) 6 7
Itens de conveniência(de série e opcionais) 7 8
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 7 8
Relação custo/benefício 8 7

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1.598cm³ de cilindrada, 111 cv de potência máxima a 5.600  rpm, 15,1 kgfm de torque máximo a 4.000  rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio manual de cinco marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h 
9,88 segundos com gasolina e 9,49 segundos com etanol  (dados de fábrica)

VELOCIDADE MÁXIMA 
191 km/h (dado de fábrica)

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira, tambores na traseira, com ABS e EBD

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson, com barra estabilizadora; traseira, semi-independente, eixo de torção, com barra estabilizadora

RODAS E PNEUS
Rodas em liga leve, 5,5 x 15, pneus 175/60 R15

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,780; largura, 1,665; altura, 1,528; distância entre-eixos, 2,450

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 41 litros; porta malas: 265 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 390 quilos; peso: 982 quilos

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

 

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